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Um útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas

Conheci o livro depois que visitei um determinado blog. A dona da página escolheu uma estrofe do poema A Mulher Limpa, para compor a definição do seu perfil. O poema diz o seguinte:

"uma mulher gorda
incomoda muita gente
uma mulher gorda e bêbada
incomoda muito mais
uma mulher gorda é uma mulher suja
uma mulher suja
incomoda incomoda
muito mais"

Enviei um e-mail á autora do blog, pedindo autorização para publicar o perfil dela nos "Os melhores Perfis de Blog", mas como ela não publica há quase um ano, é pouco provável que terei resposta. Mas se houver, eu conto pra vocês e indico o blog.

Achei fascinante a ousadia da dona do blog em colocar um pensamento tão inusitado na apresentação do seu perfil. Perceba que o praxe das blogueiras é colocar frases que esclarecem que seu perfil é algo tão importante, infinito e misterioso quanto a bíblia. O que leva a maioria a escolher as frases batidas de Clarice Lispector, ou qualquer outra autora costumada a se definir como algo muito especial e incompreensível.
Nada contra Clarice, mas contra a banalização de suas palavras.

Contudo, a beleza aqui, ou a coisa inusitada, não está no fato da autora do poema dizer nesta passagem sobre mulheres gordas (como os mais secos e desprovidos de astúcia pode imaginar). Mas no fato de alguém descrever uma mazela, assim definido pela sociedade. Eis aqui, alguém disposta a elucidar as qualificações impostas para as mulheres. Eis que você pode se auto definir como um ser estrelar infinito, para melhor amenizar a visão social, de que você não passa de uma mulher suja e feia.
Para ler mais, clique em "Leia mais"!


Obviamente, fui atrás do livro pela internet a fora. Encontrei alguns documentos que trazem alguns poemas. O mais comentado é o poema "Mulheres Limpas". E quem é mulher, sabe que desde pequena, foi enquadrada em uma dessas formas. E os homens sabem que todos nós (homens e mulheres) de certa forma, as enquadramos em "limpas" e "sujas".

Porque uma mulher boa
é uma mulher limpa
e se ela é uma mulher limpa 
ela é uma mulher boa

há milhões, milhões de anos
pôs-se sobre duas patas
a mulher era braba e suja
braba e suja e ladrava

porque uma mulher braba
não é uma mulher boa
e uma mulher boa
é uma mulher limpa

há milhões, milhões de anos
pôs-se sobre duas patas
não ladra mais, é mansa
é mansa e boa e limpa

uma mulher muito feia
era extremamente limpa
e tinha uma irmã menos feia
que era mais ou menos limpa

e ainda uma prima
incrivelmente bonita
que mantinha tão somente
as partes essenciais limpas

que eram o cabelo e o sexo
mantinha o cabelo e o sexo
extremamente limpos
com um xampu feito no Texas

por mexicanos aburridos
mas a heroína deste poema
era uma mulher muito feia
extremamente limpa
que levou por muitos anos
uma vida sem evento


Angélica Freitas foi aclamada por uns:

"um impacto que parece derivar do fato de que ela aborda, com alguma violência, questões candentes da (micro e macro) política contemporânea".  (Antônio Xerxenesky, editor do site da Cosac Naify)

Mas também, muito criticado por outros: 

Um útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas (Cosac Naify), foi apontado por um pequeno júri, a serviço da Folha de S. Paulo, como uma das principais realizações de poesia em 2012. O livro refere-se, no tocante ao tema, a uma série de elaborações sobre diversas representações do feminino. Mas o conteúdo, por si só, é, em fim de contas, secundário para a poesia, assim, a partir dele, pouco se pode inferir acerca das conquistas poéticas encontradas na obra. Interessa mais verificar suas formulações, antes, as formas através das quais esse conteúdo passa a ser manifestado ou deduzido por seus leitores. O livro em questão, entre filógino e generativo, enfileira generalizações; descortina de certa maneira imagens carregadas de preconceito ainda dedicadas à mulher, porém não materializa o estiramento da linguagem exigido à poesia. (Denise Martins Freitas- Escritora e professora de história)

Como podem ver, alguns pensam que a estrutura poética da autora é mesquinha e outros dizem ainda que a obra não passa de expressões feminista, de uma feminista triste.

Com todo respeito às críticas que li sobre o livro, mas penso que as pessoas estão ficando loucas. Que
importa a classificação feminista, política ou etc? Hoje, enquadrar as coisas em um rótulo é mais importante que sentir um poema, degustá-lo. Que me importa se o livro pode ser classificado como uma demonstração desesperada do universo feminino, sendo facilmente enquadrado como feminista, se é que isso é verdade? Quem disse? O poema é bom, mexe com as pessoas de alguma forma, sejam elas homens ou mulheres.

Escritora Angélica Freitas
Dizem os críticos que a escrita apresentada pela autora não merece elogios, visto não passar de rima banal, coloquial e previsível, porque a autora diz: “eu quando corto relações/ corto relações”. E eis motivo para um ser que nunca escreveu um poema, desmerecer a obra. Talvez porque a colocação das palavras não se apresentou tão elegante, ou dentro dos padrões aterrorizantes da elite literária.

O mundo robô, criou tantas regras, rótulos e qualificações, que hoje, um poeta para ser bem elogiado, deve por ventura esquecer da melhor parte: a espontaneidade da alma.

Um útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas é um excelente e inusitado livro de poemas, que mereceu e continua merecendo nossa atenção. Deve ser lido e degustado por homens e mulheres, amantes da leitura, de um bom poema e da expressão da alma.

Verdade, agora, o poema é útero. E se tentamos explicá-lo, eis que matamos o poema com o veneno-remédio da expressão que nunca o alcançará. Por isso é que a leitura afetiva (o que me move a escrever enquanto o poema me move a escrever) e a cronocrítica (a exposição da experiência de leitura no tempo do afeto), são o único caminho que nos leva ao texto: espiamos o poema como quem olha no buraco de uma fechadura. (Márcia Tiburi) 

Mas os poemas do livro não estão limitados ao problema social referente às mulheres. Eles vão além, mesmo com toda simplicidade que tem. Eles são irônicos, são engraçados, mesmo atrelados às tristes verdades que passam todas as mulheres: as mulheres de posse, as mulheres de regime, as mulheres de rollers, as mulheres de vermelho.

mulher de posses
em comum com o mestre zen
que partiu a sua xícara
porque a ela se apegava
esta mulher não tem nada
por outro lado, tem
aparelho completo de chá
e faqueiro vindo de solingen

nunca ofereceu
um chá que fosse
e banquetes, quando houve
só usaram tramontina
mas nada pretende vender
e se é uma arte perder
desolée, não a domina

mulher de regime
eu me sinto tão mal
eu vou lhe dizer eu me sinto tão mal
engordei vinte quilos depois que voltei do hospital

quebrei o pé
eu vou lhe contar eu quebrei o pé
e não pude mais correr eu corria 10 km/dia
aí um dia minha mãe falou: regina

regina você precisa fazer um regime você está enorme
você fica aí na cama comendo biscoito
e usando essa roupa horrível que parece um saco de batatas
um saco de batatas com um furo pra cabeça

também não precisava óbvio que fiquei magoada
primeiro fiquei muito magoada depois pensei: ela tem razão
daí eu comecei regime porque me sentia mal
eu me sinto mal eu me sinto tão mal

troquei os biscoitos por brócoli queijo cottage e aipo
coragem eu não tenho de fazer uma lipo
eu me sinto tão mal por tudo que comi esse tempo todo
tão mal e tem tanta gente passando fome no mundo



Para ler o poema "Uma mulher Limpa, completo, clic aqui.

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