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O Amor do Pequeno Principe - Cartas a uma Desconhecida



As Cartas Originais de Antoine de Saint-Exupéry que compõem esta coletânea estão no Museu de Cartas e Manuscritos
(rua de Nesle, nº 8 - 75006 - Paris França)



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Em Maio de 1943, Antoine de Saint-Exupéry, depois de viver mais de dois anos nos Estados Unidos, onde publicou notavelmente o Pequeno Príncipe, volta a Argelpara tentar encontrar o campo de ação militar de sua esquadrilha, o grupo de reconhecimento aéreo 2/33.
Um dia, no trem que o conduzia de Oran a Argel, conhece uma moça de 23 anos, originária do leste da França, casada, habitante de Oran, oficial e condutora de ambulância da Cruz Vermelha. Apaixona-se imediatamente por ela, e os dois se relacionam durante o último ano de sua vida.
As poucas cartas que ele lhe enviava então revelam o elo entre o personagem do Pequeno Príncipe e seu amor, e a função muito especial que tem o desenho na expressão dos sentimentos.

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O Pequeno Príncipe


Desculpe incomodá-la... Só queria lhe dar bom dia!


(Pág. 9 do livro)


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Ela nunca está em casa quando telefono... À noite também ainda não chegou... Não telefona... Estou muito zangado com ela!



(Pág. 10 e 11)

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É triste... Não pensa em me telefonar


(Pág. 12 e 13)

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A Carta do Pequeno Príncipe 


Não foi muito gentil não me telefonar nem vir me visitar, porque não sou tão esquecido e gostaria muito que....

O Passarinho:
Então, acabou ou não esta carta? Agora preciso levá-la...

O Pequeno Príncipe
Desculpe! Estou escrevendo para uma amiga que se esqueceu completamente de mim...


O autor escreve todo esse diálado dentro desse desenho aqui, e no livro é reproduzido na página ao lado

(Pag. 14 e 15)

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Menininha, tentei telefonar para você (ontem à noite, por exemplo, liguei para o número que me deu até as 21h30, mas você ainda não tinha chegado. É uma falta de consideração... E hoje de manhã liguei para o outro número, e às 10h50... e você já tinha saído! É uma falta de consideração maior ainda!).

Mandei-lhe um bilhetinho de quatro linhas, mas você não me disse se recebeu. Por isso, menininha invisível, estou lhe enviando uma outra menininha que inventei, que será minha amiga como o Pequeno Príncipe, e cuja história vou lhe contar. Ela também tem uma porção de coisas maravilhosas para me dizer. Está muito triste porque ainda não sabe que sou seu grande amigo, mas acho que em um dos próximos desenhos ela vai sorrir. (E ela é muito mais gentil que você!)
Telefone-me o mais depressa possível, se não quiser que eu lhe seja infiel...



(Pág. 16 e 17)
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Ele estava triste, e por isso foi injusto. Risquei tudo o que ele dizia... mas guardei o desenho, porque está tão parecido...
Ele não é tão mau assim, mas está tão triste...



(Pág. 19)

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Desde agora, cinco horas da tarde, até a hora em que for dormir, estarei sozinho, porque disse a todos os meus amigos que estava muito cansado e não queria ver ninguém.

menininha para quem cuidadosamente reservei esse tempo livre nem se deu o trabalho de me avisar que não viria.



Descubro com melancolia que o meu egoísmo não era tão grande assim, pois dei ao outro o poder de me magoar.

Menininha, foi com carinho que lhe dei esse poder. É com melancolia que a vejo usá-lo.


Os contos de fada são assim. Uma manhã, a gente acorda e diz: "Era só um conto de fadas..." E a gente sorri de si mesma. Mas, no fundo, não estamos sorrindo. Sabemos muito bem que os contos de fadas são a única verdade da vida.


A espera, os passos leves. Depois as horas que correm frescas como um riacho em meio à relva sobre seixos brancos. Os sorrisos, as palavras sem importância que são tão importantes. Escutamos a música do coração: é linda, linda para quem sabe ouvir...


Queremos muitas coisas, é claro. Queremos colher todos os frutos e todas as flores. Queremos sentir o cheiro de todos os campos. Queremos brincar. Será mesmo brincar? Nunca sabemos onde começa a brincadeira nem onde ela acaba, mas sabemos que somos carinhosos. E ficamos felizes.


Não gosto da estação interior que substituiu minha primavera: uma mistura de decepção, de secura e de rancor. Mergulho num tempo vazio onde não tenho mais motivo para sonhar. O mais triste num sofrimento é se perguntar : "Vale a pena?"


Vale a pena todo esse sofrimento por quem nem mesmo pensa em avisar? Certamente não. Entaõ nem sofrimento se tem mais, e isto é ainda mais triste.


Não há Pequeno Príncipe hoje, nem haverá nunca mais. O Pequeno Prícipe morreu. Ou então tornou-se cético. Um Pequeno Principe cético não é mais um Pequeno Príncipe. Fiquei magoado com você por tê-lo destruído.


Também não haverá mais carta, nem telefonema, nem sinal. Não fui muito prudente, e não pensei que pouco a pouco, com isso, arriscava um pouco de sofrimento. Mas eis que me feri na roseira ao colher uma rosa.


A roseirá dirá: "Que importância eu tinha para você?" Chupo meu dedo, que sangra um pouquinho, e respondo: "Nenhuma, roseira, nenhuma. Nada tem importância na vida. (Nem mesmo a vida.) Adeus roseira."


A.



(Pág. 20  a 23)



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Posso continuar escrevendo, porque é minha última carta. Mas escrevo deitado e as Linhas ficam tortas,como se eu tivesse bebido: só bebi um pouco de tristeza.
Fico chateado, pois até minha tristeza está arruinada. Teria sido triste se você não tivesse podido vir. Mas para todos a vida está difícil. Eu não teria deixado esperando, não por não ter vindo. É a menos bela de minhas lembranças. Não devia destruir minhas lembranças.
Gostaria de apagar isso.Preciso de uma outra última lembrança.
Ei-la. Lembro-me de que fui pastor. Velava solitário. Ela dormia ao meu lado, toda enrolada em sua lã, como uma ovelhinha. E eu pousava a mão sobre seu manto de lã. Velava solitário sobre meu pequeno rebanho adormecido.
Pousava a mão sobre a fronte teimosa de minha ovelha. Isso a protegia contra a vida. A vida é difícil. Porém, conheço bem os perigos do mar. Já naveguei tanto pelo mundo. Senti sede, frio e medo.Senti tanta dor . Mas também já saquei tanta coisa. Pulei muros, roubei frutos nos pomares, passei tanto com o amor sob as estrelas. E naquela noite, era como um velho experiente abordo de um naviozinho. Devia conduzir-lo á luz do dia... Tinha que fazê-lo atravessar docente a noite, como o mar, até amanhecer.
Eu dizia ao naviozinho: “Você é um lindo naviozinho, muito corajoso. E estou muito feliz por ter podido ser , uma vez , seu capitão até amanhecer.”
E dizia á ovelhinha, quando preferia ser pastor: “Você é uma linda ovelha leal e corajosa.
É tão doce passar a mão na sua lã. Tem-se a impressão de estar abençoando...”
Quando vezes sonhava que não era nem uma ovelha nem um naviozinho. Então imaginava ser responsável por ela, como por uma amante – até o amanhecer. Eu lhe dizia:
“Durma bem, amada...” Ah! Sei bem que isso não quer dizer grande coisa, apenas que tenho muito amor pelo amor. Eu lhe dizia: “durma”... E logo a acordava. É assim o amor.
Eu lhe dizia ”durma”... e acordava. Senão, como poderia adormecê-la? E quando a acordava, ah! Eu trapaceava! Pensava que vamos tão longe no amor quanto no sono. Queria fazê-la no amor.
Eu era um pouco aquele comandante que leva seu navio para onde não deve, para as estrelas; era um pouco aquele pastor para onde não deve, para as estrelas; era um pouco aquele pastor que come a ovelha. Era um pouco ladrão de sono...
Foi essa a historia que sonhei para inventar para mim mesmo, uma última lembrança que valesse a pena. Sei bem que não tenho direito de ser pastor de uma ovelha , nem capitão de um navio , nem pastor de um navio , nem capitão de um navio , nem capitão de uma ovelha...
Mas se me dá prazer esquecer seu esquecimento e inventar para mim mesmo uma lembrança?



(Pág.24 a 27)

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Menininha, vou tratar você com intimidade, é mais fácil para mim. Só queria lhe dizer que fiquei um pouco emocionado com a conversa de outro dia. Você é uma garotinha legal.
Não quero mais brigar com você. Azar o meu se ás vezes fico um pouco triste. Você tem razão em tantas coisas... Sem dúvida eu lhe farei mais mal do que bem. Sem dúvida , não , mas talvez.
Então tomei grandes decisões, e você pode tornar a me ver.
Sou seu amigo.


Claro que a menor primavera enfraqueceria minhas decisões-mas azar se não há mais primavera.



Fim









Dados do Livro:
Tradução: Alcida Brant
Lançado no Brasil em 2009. Com aquarelas do Autor.
Editora Nova Fronteira
Páginas: 29
Valor: Eu comprei o meu por R$26.70. O textos acima é a obra completa do livro. Então, sugiro que compre apenas se for muito fã do autor. Ele é raro, difícil de encontrar em livrarias. Não encontrei a obra pra baixar em PDF.



ATENÇÃO: esta postagem aqui está desatualizada. Eu fiz uma mais bonita e deixei a disposição o PDF do livro, caso você queira baixar. Foi escaneado do meu próprio livro. Você pode ler Aqui




18 comentários:

  1. "Descubro com melancolia que o meu egoísmo não era tão grande assim, pois dei ao outro o poder de me magoar."
    (...)
    "Mergulho num tempo vazio onde não tenho mais motivo para sonhar. O mais triste num sofrimento é se perguntar: 'Vale a pena?'"
    "Vale a pena todo esse sofrimento por quem nem mesmo pensa em avisar? Certamente não. Então nem sofrimento se tem mais, e isto é ainda mais triste."

    Nossa, quanta dor, quanta agonia...

    A paixão o deixou muito angustiado, é notável a tristeza que acompanha o discurso, um discurso singelo, porém belo na sua simplicidade.

    Bela postagem, Sabrina. Parabéns.

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    1. Ele realmente estava muito triste. Mas é uma preciosidade podermos ter acesso a estas palavras do escritor. Essa postagem é bastante antiga, quero ver se melhoro o layout dela e faço outras fotos melhores!
      Beijos e volte sempre Zaque!

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  2. Quanta tristeza! Nem sabia que existia esse livro, fiquei muito surpresa ao achar o conteúdo dele aqui (sim, estou lendo seu blog desde manhãzinha haha). Adorei as cartas, apesar de triste.

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    1. Esse livro é lindo Marina. Quero refazer esse post e melhorar o layout, colocando fotos melhores. :)

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  3. Muito bom, tbm as vezes me sinto assim...
    e obrigada por dividi-los conosco.

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  4. MUITO FELIZ POR ENCONTRAR SUA POSTAGEM.
    Uma relíquia tanto quanto o livro.
    obrigada!

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    1. Mais feliz fico eu com sua visita Enide! Volte sempre! :)

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  5. Você não tem um pingo de noção da alegria que senti ao encontrar isso aqui! Procurei tanto. A vida vai ser generosa comigo em me fazer feliz encontrando esse livro em alguma livraria. Não vou desistir. É perfeito e triste. Me encontro na mesma situação em que ele estava. Obrigada por ter postado.

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  6. Waleska, engraçado você dizer isso, porque quando eu descobri o livro, eu também passava por situação parecida. E eu também nem imaginava que e iria encontrá-lo. A história de como eu encontrei o livro foi bem legal, eu contei ela no blog. Depois dá uma olhada AQUI! para ler a postagem.
    Daqui uns dias, eu vou postar imagens melhores do livro, eu prometo. Então por favor, volte depois para conferir! :)

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    1. Você também passava por situação parecida... Olha só o acaso da vida nos surpreendendo! Prometo voltar sim pra conferir as imagens... Quer dizer, prometo não sair mais do seu blog. Obrigada novamente.

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  7. Não tenho muito o hábito de ler, porém, venho num momento em que estou perdendo um grande amor (se eu já não tiver perdido), e esta pessoa ama o Livro do Pequeno Príncipe, como também a história do Antoine de Saint-Exupéry. Por acaso vi na internet este livro e fiquei curioso sobre a história deste livro. Me identifico com vários sentimentos expressados no livro, principalmente na melancolia do texto. De fato o amor deixa-nos perdidos em nossos próprios pensamentos e isso é um trampolim para uma piscina de angustia. Não tiramos só as coisas trites que o amor pode causar, mas de fato são com elas que aprendemos mais. O livro é ótimo, porém, uma pena eu não encontrar nem na internet para poder adquiri-lo e poder presenteá-lo. De qualquer forma, obrigado pelo bom trabalho de dividir o livro conosco.

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    1. Oi Ribeiro K.
      Olha, esta postagem aqui está desatualizada. Eu fiz uma mais bonita e deixei a disposição o PDF, caso você queira baixar. Foi escaneado do meu próprio livro. Você pode ler Aqui: http://trombadeelefante.blogspot.com.br/2014/11/o-amor-do-pequeno-principe-cartas-uma.html
      Se ela gosta do pequeno príncipe, acredito que ela seja um ser humano maravilhoso. Torço para que o final feliz de vocês chegue logo. Mas o amor é sempre um presente, seja a circunstância que for. Obrigada por visitar o blog!

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  8. Eu simplesmente estou encantada e apaixonada por essa obra. Li O Pequeno Príncipe, e agora li O Amor do Pequeno Príncipe. Como alguém é capaz de escrever tão belo assim? Há tempo n faço um boa leitura, estou muito deslumbrada e fascinada por essa obra. Obg Sabrina por compartilhar essa magia conosco!
    "[...] Os contos de fadas são a única verdade da vida"

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    1. Querida Micaela,
      Eu que tenho muito que agradecer o seu carinho. E que bom ver tanta gente de bom gosto que ama o pequeno príncipe. Não esquece que deixei arquivo pra vocês poderem baixar a obra completa em PDF, caso queira.
      É só acessar esse link aqui:http://trombadeelefante.blogspot.com.br/2014/11/o-amor-do-pequeno-principe-cartas-uma.html
      Publiquei seu comentário no marcador, "Os melhores comentários do Blog". Espero que não se importe. Esta nesse link aqui:
      http://trombadeelefante.blogspot.com.br/2015/10/comentario-de-leitor.html
      Grande beijo!

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